domingo, 28 de outubro de 2007

Amaciante

Lembro-te ao amanhecer.
Quase dormindo,
Quase acordando...
Entre lençóis com cheiro de amaciante,
Teu leve sorriso,
Um afago na alma.
E a certeza irritante
Que sempre chegava a hora
De te deixar partir...
Os pacientes, mais do que impacientes,
Esperavam por ti.
Passava o dia.
Andava pelo tempo,
Eu, pensando em ti...
Entre sua mensagem de “cheguei bem”
Até o telefonema de “morreu alguém”,
Ou não...
Ou mais apenas algumas suturas,
Nas vidas duras assistidas
Na tua diária lida.
Disso nunca esqueci...
Hoje não vejo mais teu amanhecer,
Nem teu sorriso,
Nem espero a hora de tua partida.
Só sei que restam os pacientes,
Sempre impacientes...
Esperam-te,
Já não sei mais onde,
Nem para quê.
Não existem mensagens,
Nem telefonemas...
Ando perdida no meu universo,
Repleto de fonemas
Que já não dizem nada a ti...
Para mim,
Só restam agora os lençóis.
E a certeza irritante
Do cheiro de amaciante.

domingo, 21 de outubro de 2007

Para Zeca Baleiro


José de Ribamar,

Maranhense ariano.

Em ponto de bala,

Virou Baleiro.

Colorido, sortido,

Seu pensar,

Seu saravá,

Seu cantar...

Coração lusitano, analógico.

No verso original

Faz-se verve.

Na voz sensual

Reflete-se preciso.

Humor afiado

Nas cordas do violão.

Peculiar no som,

No tom...

Com ele vou para Babylon...

Começa com quase nada,

E diz quase tudo...

Poeta dos amores correspondidos

Ou, quiçá, mal-resolvidos.

Os lindos que o perdoem,

Mas ele tem borogodó...

E sem mais o que dizer,

Acho que fui para lhe ver...

sábado, 20 de outubro de 2007

Caminhar

Olhos fixos.
Em sua frente, o mar revolto,
Ou melhor, o horizonte.

Pés firmes.
Embaixo deles, a areia,
Ou melhor, o mundo inteiro.

Braços cruzados.
Atrás deles, o peito aberto.
Ou melhor, o sentimento novo.

E assim sigo em frente.
A nova caminhada...

domingo, 14 de outubro de 2007

Nova cor

Um tanto de liberdade,
Um pouco de prisão...
É o amor e suas velhas novidades.
Por ser diferente,
É sempre o mesmo.
Inquieto, insólito,
Que o digam infame.
Nutre-se de si mesmo.
As suas doces amarras,
Apertadas...
Ajustadas às incertezas,
Afinadas ao desejo...
Ando eternamente com suas correntes
Atreladas aos meus pés.
Pois todo seu peso transforma-se
Na leveza do meu olhar,
Que sutilmente,
Deposita nova cor em todas as coisas...

domingo, 7 de outubro de 2007

Normal

Não existem injustiças nos grandes amores,
Não existem dores na esperança matinal,
Não existem flores no seco deserto,
Não existem alegrias na ausência...
...de quem se quer perto...
Nem certas tristezas...
...quando tudo parece normal...
E o que é ser normal?
Não fugir às regras estabelecidas?
...por não se sabe quem...
...e nem mesmo quando...
Chego ao conceito de sua não existência.
Minha total impertinência
Fala por si só.
Toda regra é impura e vazia,
Pois meu caminho é de desejo,
É de se fazer a cada dia...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Mergulho

Amar é mergulhar
No poço sem fundo,
Profundo, sem volta,
Onde tudo vira nada
E qualquer nada já é tudo.

Primeiro vai o corpo,
Todas as suas partes,
Em parte,
Pedaço a pedaço
É tomado de sensações
Que o fazem vontade própria.

Depois vai a alma,
Toda inteira,
Indivisível,
Sem juízo em se tratar de amor.
Pois por ser alma
Ignora o mundo inteiro...
Ao perder-se no que parece pouco
Encontra-se na plenitude.